Escapismo nostálgico
Estamos vivendo em um cenário marcado pela fadiga digital e pelo excesso de estímulos que acabam gerando uma exaustão coletiva. A tendência Poetcore é o reflexo comportamental profundo desta época, que surge como um manifesto visual de desaceleração e intelectualidade em um mundo hiperdigitalizado. Essa tendência resgata o valor da contemplação, da escrita à mão, da melancolia romântica e do silêncio. Neste cenário, ler acaba sendo um gesto simples e necessário para quem busca um pouco de silêncio em meio a ruídos constantes.
Surge como uma resposta emocional a períodos de instabilidade social e ansiedade coletiva. Reflete um desejo por pausa, profundidade e identidade. Livros, escrita, literatura e artes ganham mais espaço no dia a dia, influenciando a construção de uma estética que privilegia a autenticidade, a permanência e o significado. Responde a uma necessidade de olhar para dentro e construir uma imagem pessoal menos performática.
Os livros voltaram a ocupar um espaço importante

Houve um crescimento no consumo de livros no Brasil em 2025. “De acordo com a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses, um crescimento de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores no período. O estudo é uma iniciativa da Câmara Brasileira do Livro, com realização da Nielsen BookData.” (trecho do artigo escrito no site da CBL em 16 de março de 2026).
A leitura começou a ocupar um espaço em redes sociais onde os próprios leitores passam a influenciar outros leitores e o livro acaba se tornando objeto de desejo, como por exemplo o livro “É assim que Acaba”, entre outros. Isso ajudou a transformar a leitura em experiência coletiva, em conversa e tendência. Clubes de livros passaram a influenciar listas de mais vendidos, fazendo com que a rede social se torne um jeito novo de descobri-los. Não somente isso, mas o Booktok transformou os leitores em influenciadores culturais também. Esta experiência compartilhada construiu comunidades capazes de gerar identificação e pertencimento.
O surgimento de clubes de leitura curados e salões literários modernos em Paris e Londres também mostra que não se trata de um caso isolado. Marcas como Miu Miu resgataram salões literários tradicionais (Miu Miu Literary Club), que promovem encontros em capitais globais para debater obras de escritoras clássicas e contemporâneas, unindo a elite da moda ao pensamento intelectual.
O consumidor norte-americano também está disposto a pagar pelo “direito ao silêncio”, como mostram as “Quiet Reading Hours” (Horas de Leitura Silenciosa) em cafés e livrarias independentes de Nova York e Los Angeles, onde pessoas pagam ingressos para entrar em um espaço charmoso, desligar os celulares na porta e ler juntas em silêncio por um período de tempo.
Seul vive a febre do Text Hip elevando o livro a acessório de estilo. Postar o que está lendo, compartilhar trechos e citações, e participar de eventos literários se tornou um comportamento. Mesmo enfrentando críticas de ser apenas performática, os efeitos na prática ajudaram a estimular a economia no país e a mudar a perspectiva das pessoas sobre a literatura. Por mais que não leiam o livro todo, isso acaba gerando um impacto positivo pois a chance de se conectar com a literatura existe de alguma forma. A leitura permite que a gente se reconheça no processo, ampliando nossa visão de mundo.
Literatura em Movimento

O Poetcore traduz uma moda com alma literária, visual introspectivo e referências que atravessam o tempo. Seu vocabulário visual é construído por peças atemporais e escolhas conscientes. O que estamos vendo hoje em lojas e nas ruas foi sinalizado há mais de um ano, nas passarelas.
Esta tendência não apenas continua atual, como se consolidou agora, em 2026. Pinterest, por exemplo, confirmou o Poetcore como uma das maiores tendências oficiais deste ano. Ela pode ser considerada uma macrotendência porque não dita apenas o que as pessoas vestem, mas como elas vivem, alterando o comportamento social e o consumo a longo prazo.
Desfiles como o da Dior prêt-à-porter (Outono/Inverno 2026) apresentaram uma coleção com referências que evocam a atmosfera de romances vitorianos como camisas com laços, babados na gola e mangas. Saias armadas, releituras de corsets, casacas e fraques também fizeram parte deste tema.
A coleção de Brunello Cucinelli foi inspirada no universo equestre. Gravatas lavallière, botas de cano alto e padrões clássicos, como Príncipe de Gales, tweeds e tartans foram a base do inverno 2026, pontuado por um toque de burgundy e acessórios de moda como luvas usadas. O desfile feminino foi marcado pelo estilo quiet luxury, trazendo peças em malharia e tricô, tecidos luxuosos e uma paleta de cores elegantes.
Enquanto isso, Miu Miu explorou, na coleção de Outono/Inverno 2026, a estética da “bibliotecária cool”, com saia lápis mídi, cárdigans abotoados, suéteres de gola V estruturados com camisas por baixo, e óculos de grau marcantes.
Como é o guarda-roupa poético e funcional?
O sentimento literário em roupas é traduzido por tons terrosos suaves, vinhos e cinzas. A escolha de materiais táteis como lã, veludo e tweed remete à durabilidade, enquanto cortes clássicos como a alfaiataria, os trench coats e os sapatos oxford surgem como oposição à fast fashion. O consumo consciente e a estética incentivam o garimpo em brechós e a busca por peças duráveis.
E para finalizar, seguem algumas referências de street style desta tendência chic and cool que dominou as passarelas e as ruas!












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