Como o algoritmo engoliu as subculturas de moda e nos deixou em estado de vertigem.
Quero começar este artigo falando sobre o significado da palavra tendência: tender para, inclinar-se para, propensão, disposição . Uma mudança em como pessoas, comunidades e sociedades sentem e se comportam, que apontam para uma determinada direção. São mudanças nos valores culturais que estão sendo desenvolvidos, que indicam o que as pessoas estão começando a valorizar e precisar. Tendências são sinais de que algo está mudando e como o futuro pode ser diferente.
Estes sinais também mostram como as pessoas escolherão viver no futuro, assim como quais produtos e experiências irão buscar. Definir o que podem vir a ser tendências para um futuro próximo envolve muito trabalho, muito estudo, muita análise e atenção aos detalhes e nuances na mudança de comportamento das pessoas e suas atitudes de consumo. Elas indicam uma nova ou diferente maneira das pessoas se relacionarem com o mundo. São previsões e possibilidades, não fatos. A pesquisa de tendências nos ajuda a antecipar ações. É um indicativo de um caminho a ser seguido. Estudar tendência também é estudar sociedade.
Classificação das tendências
As tendências podem ser classificadas em categorias. Seguem as classificações, de uma forma bem resumida:
- Megatêndencias: são grandes mudanças sociais, econômicas, políticas, ambientais ou tecnológicas que afetam toda sociedade. Duração longa: mais de 10 anos, podendo chegar a 50 anos. Exemplo: Bem-Estar (Wellness).
- Macrotendências: surgem dentro das megatendências, alterando mercados específicos e dinâmicas de consumo. Duração média: entre 5 a 10 anos. Exemplo: Athleisure.
- Microtendências: é o reflexo da macrotendência em forma de bens de consumo. Pode durar poucos meses até 5 anos. Exemplo: meia de cano médio.
- Modismo: algo que aparece e passa de maneira muito rápida. Abrange comportamento, estilo, comunicação e linguagem. Exemplo: faixas de cabelo anos 90.
O mundo da moda na era digital
O mundo digital se tornou a principal vitrine na moda. O algoritmo muda as regras a cada semana e este processo se intensificou de vez durante a pandemia. Esta nova vitrine é super dinâmica, global e muito mais democrática, mas tornou o mercado muito mais competitivo também. Pequenas marcas e grandes grifes conseguem competir pela atenção do mesmo público. Esse fluxo contínuo de imagens e informações acaba criando um sentimento de urgência constante mas também acaba gerando um mar de ruídos onde a saturação sufoca a originalidade, seja de uma marca institucional ou de uma marca pessoal.
Até um tempo atrás, uma estética era acompanhada de ideais ou posicionamentos, marcando uma década. Toda vez que uma roupa nova surgia nas ruas, de uma forma impactante, ela estava tentando curar ou protestar contra uma dor de uma cultura dominante daquela época. A mecânica de formação era sempre a mesma: a cultura dominante, seja ela burguesa, aristocrática ou a cultura operária tradicional dos pais, que estabelecia as regras, e um grupo de jovens que criava uma subcultura para fraturar essa norma através da música, do comportamento e do vestuário.
Com o avanço da Revolução Industrial, a urbanização das cidades e, mais tarde, o nascimento da juventude como uma classe social e de consumo após a segunda guerra mundial, as ruas acabaram virando palcos de contestação. Os séculos XIX e XX foram os grandes incubadores das subculturas modernas, que nasceram de valores e movimentos sociais, como o grunge, teddy boys, punk e outros.
O cenário de hoje não cria mais subculturas. Estes movimentos precisavam de anos para amadurecer seu manifesto, anos de incubação nas calçadas, guetos urbanos, clubes noturnos. Elas foram substituídas pela velocidade do algoritmo. Agora nascem e morrem na tela de um celular em questão de semanas. São apenas estéticas para consumo, sem ideais ou posicionamentos.
As subculturas foram engolidas pelo algoritmo, transformando-as em estéticas vazias de consumo. Elas prometem comunidade porém no momento em que o participante finalmente consome uma identidade visual para pertencer àquela comunidade, o feed muda, a estética satura e isso faz com que ele se sinta excluído e muitas vezes esvaziado de si mesmo também.
Em um mundo onde o algoritmo cria uma microtendência a cada quinzena, filtrar o excesso visual acaba se tornando o verdadeiro ato de rebeldia. O desafio é não se perder diante de tantas informações e ruídos, olhar para dentro de si e identificar seus valores, escolher peças que expressem sua identidade e seus ideais. A moda continua sendo uma forma de expressão, o reflexo e espírito de um tempo. Podemos sim dialogar com as tendências, sem nos tornar dependentes dela.

Deixe um comentário